IoT: a oportunidade na rede de abastecimento de água
O século XXI é frequentemente apelidado de “século da informação”. Fruto da explosão tecnológica iniciada na década de 80 e da massificação da internet nos anos 90, o mundo atingiu um patamar de conectividade sem precedentes. Hoje, a informação e os dados circulam pelo planeta constantemente, a velocidades vertiginosas, sustentando muitas das dimensões da atividade humana.
Mas, curiosamente, a revolução digital que instaurou a hiperconectividade ainda não chegou a algumas das nossas estruturas críticas – ao contrário dos ecossistemas de telecomunicações e de energia elétrica, por exemplo, a rede de abastecimento público de água permanece ancorada no mundo analógico, à margem dos benefícios da digitalização.
A consequência desta estagnação tecnológica reflete-se diretamente na eficiência operacional do sistema. Os dados do regulador (ERSAR Relatório 2024) são elucidativos: a rede nacional de abastecimento de água perdeu 163 milhões de m3, o equivalente a desperdiçarmos diariamente 178 piscinas olímpicas de água.
É da natureza desta infraestrutura subterrânea, como a conhecemos, que muitos dos problemas permaneçam ocultos de forma persistente. Quando associamos a esta tipologia o envelhecimento acentuado dos ativos, os níveis de ineficiência tornam-se inevitáveis. Continuam a ser alarmantes, mas deixam de nos surpreender.
Naturalmente, a solução passa por trocar e renovar os ativos (condutas, ramais, etc.), mas este investimento só é economicamente viável se for aplicado com critério. E, para decidir onde, quando e como intervir, são necessários dados que produzam informação rigorosa e atualizada. E é precisamente neste campo que a Internet das Coisas (IoT) pode ser um trunfo extraordinário.
Equipar a rede de abastecimento com sensores capazes de reportar o estado da infraestrutura de forma regular e em tempo real, oferece imensas vantagens, de entre as quais saliento as seguintes:
i) Deteção precoce e alarmística, para uma resposta imediata a anomalias, que permite minimizar drasticamente o volume de perdas.
ii) Otimização de parâmetros operacionais, nomeadamente da pressão, que se traduz em poupanças significativas de energia e preserva a integridade dos ativos, diminuindo a propensão para fugas.
iii) Combate a perdas comerciais, com redução de fraudes e de consumos não autorizados, conseguindo-se benefícios económicos diretos.
Em síntese, com a introdução de sensores IoT na rede de abastecimento de água conseguimos identificar com precisão e de forma estratégica as zonas críticas a intervencionar, evitando as perdas resultantes do arrastar dos problemas ao longo dos anos.
A gestão eficiente da rede de abastecimento de água ultrapassa a lógica da rentabilidade económica. A salvaguarda deste recurso escasso e essencial, tantas vezes, perigosamente, dado como adquirido, é um imperativo ético, em nome do presente e das gerações futuras. Considerando que a tecnologia necessária para diminuir de forma substancial o desperdício já existe, agora trata-se “apenas” de colocar “mãos à obra”.
Miguel Allen Lima
Arquiled CEO